fuga ou culpa
- ZYZA MAIA

- 30 de mar. de 2025
- 2 min de leitura
Atualizado: 30 de mar. de 2025
Era uma casa
que as vezes
foi lar,
Dois cômodos de incertezas.
Janelas de medo,
Portas de desespero.
Ouvi dizer que lá
Era proibido sonhar,
Mas, sonhei com a fuga.
Eu quis fugir do silêncio
Que me fazia temer
mais que as surras,
Mais que as segundas
que já eram tristes,
Antes mesmo de ser luta,
Antes mesmo de ser luto.
Eu quis fugir
da pontada no estômago
Que eu sentia no escuro,
Dos ouvidos
que nunca estavam tapados o suficiente,
Da ausência de carinho
De quem não te olha nos olhos,
Do medo de nunca saber
o que de fato eles sentem...
Eu quis ir embora
Antes de outra manhã cinza,
Onde o silêncio
insistia em ranger entre as paredes...
Mas,
demorei 10 anos só para ter coragem,
Só para arrumar as malas,
Só para dizer que agora basta.
Que, apesar de parecer casa,
Não era lar.
Eram grades
Que me mantiveram enjaulada,
Reduzindo meus sonhos
para que eu coubesse
em espaços
Que até hoje não me cabem.
Não me encaixa.
Aqui dentro,
Ainda tenho almejado a fuga
De forma incessante...
Então nos dias conscientes,
Pratico pular a janela,
Ensaio destrancar a porta,
Tento abrir o portão,
Até coloco o pé para fora...
Mas aí me pego de novo,
sonhando acordada,
Com o dia em que serei fuga,
Mesmo com as malas já arrumadas,
Mesmo já tendo dito basta,
Mesmo batendo a porta
tal qual uma filha ingrata.
Eu ainda sonho com a fuga,
Pois me sinto aprisionada
Cheia de sonhos encarcerados
E medos tão palpáveis
quanto as janelas
que há meses eu não abro...
A verdade
É que o problema
nunca foi a casa,
Nem o escuro,
Ou os ouvidos,
Quiçá a ausência de carinho,
Nunca foi ninguém.
Sempre foi a culpa.
E eu ainda tenho sido culpa
Nos dias em que não sou fuga.
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